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ESCOLA DO POVO E PARA O POVO - PARTE I

Dedico esta carta a dois queridos seres humanos para quem tive o privilégio de lecionar e que me honraram com a visita que fizeram em meu local de trabalho na semana passada. O pequeno debate que desenvolvemos proporcionou a reflexão que se segue. Permitam-me meus queridos quebrar a subjetividade e a impessoalidade nos argumentos para citar seus nomes. Karen e Jorge, espero que a nossa conversa e as linhas que se seguem possam lhes ajudar na reafirmação ou no redirecionamento de suas escolhas nos curso de Engenharia Civil e de Administração de Empresas.


Este blog permanece dedicado ao envio de cartas para as pessoas queridas com as quais tive e tenho o privilégio de fazer parte de minha memórias.

O objetivo dos textos que se seguem (Escola do povo e para o povo) é o aprofundamento no debate sobre os fundamentos de nossas de escolhas profissionais. Dentre aquilo que considero como "certeza" em minha vida posso afirma que o maior desafio do ser humano não é de aprender, e sim orientar-se para a aprendizagem satisfatória aos seus anseios. Para tanto precisa de uma inspiração. Nossos semelhantes são fontes de inspiração. Por isso os seres humanos sentem a necessidade de conviver uns com os outros. Para aprender uns com os outros. Um único professor(a) pode ser nossa inspiração. No meu  caso apresentei neste blog a página, pessoas da minha vida. Elas me inspiram e me motivam.

Nos últimos 15 anos tenho trabalhado em escolas públicas no Distrito Federal, mais precisamente em três unidades educacionais consecutivas.   Na primeira de 1997 a 2001, na segunda, de 2002 a 2010 e na última, de 2011 para cá.
São três experiencias distintas, marcadas pelo constante redescobrimento do ato de aprender-ensinar, pelo aumento da visibilidade com relação à prática pedagógica, norteado pelo meu próprio amadurecimento intelectual.
Em 1997, recém saído da universidade, trouxe comigo na bagagem  a vontade de desenvolver nesta um trabalho voltado à construção de significados a partir da experiência vivenciada em comunidade. Em tal intento se fazia presente em primeiro lugar, as minhas experiências de criança, que cresceu em lugares onde sonhar era o caminho mais viável para obliterar as agruras consequentes das dificuldades pelas quais passavam muitas famílias nordestinas no período de decadências da ditadura militar e dos crescentes movimentos sociais que clamavam pela redemocratização. Naquela época as condições do povo nordestino variavam severamente conforme o período chuvoso ou de estiagem.
No período chuvoso os pequenos produtores rurais levavam para a cidade suas fartas colheitas de milho, feijão, batata, mandioca e uma série de produtos que faziam com que as pessoas mais humildes tivessem condições de comprar mais comida para as suas mesas.
O meu pai, que era eletricista de automóveis, e de que eu e outros dois irmãos éramos fiéis ajudantes, que tinha garantida clientela composta por pequenos produtores rurais podia realizar reparos em seus veículos e por consequência  realizarfazer mais compras para a nossa casa. Além do mais era muito comum receber como pagamento pelos serviços, produtos alimentícios trazidos da roça.
Nas casa de meus Avôs, que também eram pequenos produtores rurais, não se fazia diferente. A fartura era grande em períodos chuvosos e escassa em períodos de estiagem.
Aquela situação de ter tudo ou nada deu início a mais profunda inquietação e ao desejo de me tornar profissional em uma área que trouxesse o mínimo de estabilidade.
Trabalhar com meu pai era ao mesmo tempo viver a alegria e a tristeza. A alegria porque se tratava de uma pessoa que apoiava aos filhos com contantes palavras de incentivo, respeito e admiração. Tristeza, porque apesar dos esforços, ele não conseguia se libertar do alcoolismo, o que gerava comentários dentre as pessoas com as quais convivíamos, o que muito afetava emocionalmente não só a mim, mas aos outros dois irmãos que trabalhavam conosco no mesmo ofício.
São muitas as histórias que tenho para contar daquela época e hoje, ao me lembrar sinto-me mais fortalecido, principalmente porque compreendo que meu pai muito mais nos mostrou otimismo do que pessimismo. Soube como poucos, educar pelo incentivo, educar pelo amor. Os meus ombros sentiram de suas mãos apenas o abraço afável de alguém que jamais usou o peso das mãos para agredir.
O desejo de ingressar no serviço público como estratégia para alcançar a estabilidade financeira em minha casa, foi sempre acalentado pelo sonho de me tornar professor. Embora certamente soubesse que o salário dos professores não era dos melhores, sabia também que era muito maior do que o angariado na pequena oficina, em que muitas vezes mal rendia para cobrir os custos com aluguel e energia elétrica, sobretudo nos períodos de estiagem.
Estiagem aliás foi, possivelmente, o tema gerador de maiores dividendos políticos no nordeste, por muitos anos. Os programas sociais de transferência de renda criados e fortalecidos nos últimos anos acabaram roubando a cena.
Na época em que realizei o exame vestibular e por muitos anos depois, sempre que alguém me cobrava explicações dos motivos da minha escolha  dizia que fundamenta-se em três aspectos: concorrência (duas pessoas para três vagas); perto de minha casa e, profissão que demandava elevado número de profissionais para o mercado (seria fácil conseguir emprego).
Hoje digo que foi a escolha minha vida, cresci refletindo sobre as propriedades dos materiais:

- gasolina para carros de passeio, que solve graxa e plástico e deixava um inconfundível cheiro nas mãos de afugentar as meninas na escola;
 - querosene utilizado nas lamparinas nos sítios dos meus avôs e que  ao liberar as pelotas de fuligem pela queima do pavio chamuscava as folhas dos meus cadernos durante a realização das minhas tarefas escolares;
- Álcool, que ganhou fama durante o programa pró-álcool, que compete nas usinas, com a produção de açúcar e que é também, intolerado no meu corpo e não no do meu pai, responsável por choros e barrigas vazias;
-Óleo diesel para transportes de cargas, que deformavas e desgastava o solado das minhas sandálias;
-Esterco animal, responsável pelo fulgor dos pés de  milho, principalmente quando meu avô trocava o curral das vacas de lugar dizendo que do lugar antigo sairia o milho para as pamonhas do mês de junho. Aliás, mês de culminância da produção agrícola, marcado no tempo em que o período chuvoso tinha mês marcado para acontecer.

São tantas as experiências para relatar antes de responder o porquê da minha escolha, mas precipitadamente direi que sua base fundante foi a necessidade de não me conformar com a realidade dada. Que o conhecimento advindo desta formação me permitiria intervir para a construção de outras realidades.


O que aprendi me permite pergunta o que posso fazer com o que tenho antes mesmo de lamentar pelo que não tenho. É assim que vejo a Química. Como conhecimento que me permite resgatar conhecimentos históricos a exemplo dos relatos bíblicos acerca do sonho do faraó com a espigas e com as vacas e a partir do sonho buscar a estratégia de conservar o alimento produzido por sete anos para consumir em outros sete. E com isso sinto-me feliz em saber que acertei em minhas escolhas não apenas porque vivi boas histórias, mas porque convivi com pessoas inspiradoras, colocadas cuidadosamente diante de mim pela providência divina, sem a qual nada seria possível.


A escola do povo e para o povo nasce no lugar onde se encontra a necessidade, não pode ser transferida de um lugar para o outro. Ela é o laboratório vivo para o conhecimento que precisa ser construído. E para não perder o costume permita-se que diga que:
Na visão freiriana, a linguagem não pode dissociar-se de seu contexto social e político ou do seu papel criador de estratégias de ação (1). 
Não seria difícil imaginar que a escola, em qualquer que seja a localização pode se prestar ao cumprimento do verdadeiro papel social, se dela não se fizer alijar das riquezas sócio culturais que estão à sua volta,...


(1) PETERS, Marfred. Aspectos semânticos e pragmáticos da pedagogia de Paulo Freire. In: A pedagogia da libertação de Paulo Freire/ Ana Maria Araújo Freire (Org). São Paulo: Editora UNESP, 2001.

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