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O amor precisa ser cuidado

As complicações sociais com as quais nos deparamos nos últimos dias tem provocado nas pessoas um sentimento coletivo de que é preciso avançar rumo a um tipo de desenvolvimento diferente do qual  adotamos até o presente momento. Isto porque temos medo de que todos os valores históricos relevantes para a sustentabilidade humana sejam consumidos no mesmo ritmo do consumo dos recursos naturais no planeta Terra.
Aparentemente os seres humanos são os únicos seres no planeta capazes de refletir sobre a sua própria existência e, curiosamente, os únicos capazes de denegar a Terra, o direito de cuidar de todos os seres vivos, inclusive dos seus próprios semelhantes.
Cansado de destruir florestas e provocar a extinção de todas as espécies dependentes de ecossistemas específicos, o ser humano avança rumo ao processo autofágico, no qual consome a si mesmo.
Em uma primeira vista, podemos até pensar que sempre foi assim, ou seja, os povos antigos já guerreavam na competição por espaço, por comida e por água. No entanto, algo está diferente, já não sabemos mais pelo quê competimos. Todas as bandeiras antigas estão sendo, aos poucos, renegadas e esquecidas. O ser humano ver-se diante do risco de perder a capacidade de amar a si mesmo. Consumada esta fase, nada mais fará sentido. Lhe restará o abandono da consciência e a sobrevida pautada nos instintos primitivos dos quais, em um longo processo civilizatório procurou se libertar, mas que contraditoriamente, para estes mesmos instintos avança na medida em que perde a capacidade de amar. Amar não apenas uns aos outros. Amar os animais, as plantas, a água, o vento...
Certa vez, vi em um cartaz uma frase atribuída a Paulo Freire, na qual ele dizia que queria ser lembrado como uma pessoa que amou as pessoas, a natureza, os bichos,...
Pensei na ocasião sobre os motivos para Freire se dedicar tanto a falar de amor. Ora, falar de amor e uma sociedade que tanto confunde a representatividade desse sentimento parece algo utópico.
Hoje penso que não há outro caminho capaz de sustentar o ser humano em sua caminhada, senão o amor.
Diante dos meus olhos, se encontra a imagem das mãos de uma pessoa, segurando a planta do pé de uma criança, cuja medida que se segue até a altura do joelho, iguala-se à medida do pulso da pessoa. Abaixo da imagem está escrito: "Pai, seu amor me sustenta".
Recordo-me que sempre que o meu filho via essa imagem, afirmava que as mãos eram as minhas e que o pé era o seu.
Ora, das tantas conotações que a imagem e as palavras transparecem para mim, vem a minha mente o amor como pilar que sustém a vida.
O amor pode ser comparado a uma violeta cultivada em um vaso na janela da nossa casa. Todas as manhãs olhamos para a violeta e relembramos como estava no dia anterior. Observamos se existe apenas folhas ou se há algum botão de flor. Com cuidado, a alimentamos com água e nutrientes minerais. Com zelo movimentamos o vazo. Com carinho conversamos com ela. No dia em que as flores desabrocham, nos emocionamos e nos sentimos recompensados pelos cuidados dispensados à planta.
O amor exige cuidados. Não nasce pronto. Precisa ser cultivado. Se mal cuidado, perde o significado.
O amor é privilégio dos humildes, daqueles que não se sentem auto-suficientes, daqueles que confessam precisar uns dos outros.
O amor transforma um ser rudimentar em um ser sentimental. Faz sonhar com dias melhores. Recria as esperanças. O amor se apresenta como caminho pelo qual os seres humanos tornam-se verdadeiramente livres praticantes da cultura da paz.
  

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