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A crise da ética universal

"[...] a crise ética universal é um movimento que se traduz na tentativa do Ser Humano, mesmo que de forma não intencional, de destruir a si mesmo."

Parece prematura a afirmação de que o outro é antiético mas soa prudente compreender que é possível ao outro não partilhar dos mesmos princípios éticos que eu.

Ao examinar a si mesmo, sua relação com as outras pessoas, semelhanças, modos de agir e de pensar e, sentir as necessidades fundamentais confluentes, o Ser Humano terá condições de perceber aquilo que o diferencia dos demais seres vivos e de decidir sobre se há um dever natural de zelar pelos seus semelhantes. A percepção de si enquanto Ser Humano em equilíbrio com o outro associada a ação em favor da paz coletiva combina com o que chamamos de ética universal. Ética que implica em compromisso e corresponsabilidade.
É possível sentir no falar e no agir do outro se os seus valores coincidem com os nossos ou, se despertam em nós um sentimento de que tal proceder é, ou não, ético. Mas este, enquanto julgamento nosso, não pode ser propagado como se fosse espelho da realidade. É algo muito mais para orientar nossas escolhas e nossas ações. Pelas nossas ações, falamos muito mais efetivamente e por elas marcamos os nossos posicionamentos políticos frente a realidade que se apresenta. É pelo nosso agir demonstramos o nosso compromisso com a ética.
Ética enquanto valor que orienta o modo operacional coletivo é um processo que vem constantemente sendo construído e reconstruído no tempo e espaço e por traz do sistema conceitual que a envolve, existem as tentativas de grupos sociais de adaptar ou reformar princípios éticos para fundamentar suas decisões e fazer com que sejam aceitas socialmente.
Princípios éticos nascem da partilha de significados. Podem ser construídos socialmente para o bem da coletividade ou sectariamente para o bem das classes sociais dominantes.
Quando pensamos em princípios éticos certamente pensamos em sentimentos de solidariedade, justiça, coerência, compromisso, companheirismo, i.e. Bom seria se esse pensar contemplasse a todos. E é com, por e para todos que imagino os processos revestidos de ética.
Por outro lado, quando julgamos injusta a ação do outro para conosco ou para com os demais, lançamos sobre ele o sentimento de que em  "seu lugar" tomaríamos decisão diferente. Ao julgar a ação do outro pelas nossas próprias lentes não nos tornamos mais ou menos justos. Pela razão de ser do julgamento, também questionável do ponto de vista do outro observador, implica em tropeço nos fundamentos que sabidamente entendemos éticos.
Apenas ao ser humano e somente a ele cabe a escolha de ser o que deseja ser. Qualquer tentativa externa de promover transformação sem seu consentimento se constitui para ele, algum tipo de violência. Não obstante a este pensamento, quando os seres humanos reconhecem em seus princípios individuais ou admitem-se transformar em favor do bem coletivo, de algum modo corrobora para a universal.
Inoportunamente, com o processo de globalização avançamos para situações nas quais princípios éticos de grupos sociais se tornaram tão remendados que já não podemos ou já não nos sentimos mais preparados para discutir ética universal. Ou seja, retornamos para a discussão sobre éticas de clãs, guetos e tribos. Ética de sindicatos, partidos políticos, conselhos profissionais, federações, confederações, clubes, i.e. Cada um com sua ética diferente.
Algo como pensar:
"É antiético não cuidar de um membro do nosso grupo, mas seria antiético acometer sofrimento ou negligenciar socorro a um membro de outro grupo?"
Caso a resposta seja não, "ao meu olhar", a consolidação desse tipo de pensamento reforça a ideia de que o ser humano desconhece que é parte de um todo e ao ofender ao outro, ofende a si mesmo. Ou seja, no afã de resguardar a si e apenas a si, ou ao seu grupo, expõe sua existência ao fracasso.

Portanto, a crise ética universal é um movimento que se traduz na tentativa do Ser Hmano, mesmo que de forma não intencional, de destruir a si mesmo.
 

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