sexta-feira, abril 22, 2016

Carta aberta aos que acreditam no impeachment

Ao que parece já não se pode mais falar que o impeachment da presidenta Dilma não ocorrerá. Tudo já está desenhado para ser consumado. Parte da população brasileira manifesta apoio, a câmara dos depurados por maioria qualificada diz não a presidenta, o supremo tribunal federal diz que o rito é legal, a polícia federal dá sinais de que sairá de cena, o empresariado comemora e a imprensa cria o clima de foi melhor assim.
Pobre povo brasileiro, que assina a plena autorização para a derrocada de todos os princípios éticos e morais sobre os quais foi desenhada a nossa constituição. No momento em que Michel Temer tomar posse como presidente da república já não mais poderemos falar em liberdade de expressão. Todas as falas realizadas contra a "verdade" dominante será motivo de intolerância. As transformações pelas quais passará o povo brasileiro irão muito além do que hoje se imagina. Não haverá mais fronteira entre o certo e o errado. O que determinará se algo será certo ou errado será tão somente a capacidade de convencimento daqueles que se autodeterminarem legítimos representantes do povo.
Nos últimos dias eu e muitos brasileiros estamos a vasculhar as notícias jornalísticas a procura de algo que lance luz sobre o nosso futuro aparentemente sombrio e logo observamos que não são muitas as pessoas que gozam de alguma credibilidade jornalística que se dispõem a realizar um debate sério e desapaixonado. De um lado, os que defendem acirradamente o impedimento da presidenta, de outro, os que julgam ser um golpe, o processo em curso.
Em todas as suas falas não me furto a pensar sobre quais dos jornalistas são verdadeiramente livres para proferir pronunciamento de forma imparcial. Em jogo estão seus empregos. Quem em sã consciência iria opinar contrariamente aos diretores de redação e de jornalismo? Qual diretor de TV, Jornal, Radio ou revista iria publicizar notícia contrária aos seus patrões? Quem restituiria seus empregos?
Sinceramente acredito que nenhum brasileiro pode garantir, em tempos atuais, a própria liberdade de expressão. Eu mesmo tenho esta consciência e por saber que as minhas cartas apresentam impacto nenhum na confusão de informações que se constitui em nosso país, continuo publicando. Trata-se muito mais de um desabafo interno do que na expectativa de despertar consciência nos que acreditam que podem trocar uma pessoa do comando do país e que tudo já estará resolvido.
Na verdade penso que todas as pessoas já sabem que nada estará resolvido. Acredito que muitas das pessoas que estão lutando pelo afastamento da presidenta Dilma sequer sabem pelo que estão lutando. Sequer sabem sobre o significado de "pedaladas fiscais". Sequer sabem que estão justificando os atos de pessoas muitos mais implicadas com a justiça do que aquelas a quem pretendem julgar. Ou será que sabem? Que aceitam que tem que ser assim mesmo? Jamais saberei. Mesmo porque os que desejam a saída da presidenta Dilma movem-se por um ódio absoluto ao partido dos trabalhadores. Que diga-se de passagem, submeteu-se a contradições absurdas como esta de se aliar ao PMDB acreditando que seria capaz de conter a sua fome de poder. Este partido dos trabalhadores que precisará ser reinventado porque as suas bandeiras foram consumidas pelo crescimento insustentável. Que sofreu traumas irreversíveis com os que deu origem a cisão que possibilitou a composição originária do PSOL e da Rede. Partidos estes, que curiosamente estiveram entre os que mobilizaram votos em favor de Dilma. PSOL que aliás, ao lado do PCdoB foram mais seguros em suas decisões do que os partidos de oposição que se uniram contrariamente a Presidenta.
Aliás, estes dois partidos foram muto mais agredidos durante os pronunciamentos dos deputados que votaram contra a presidenta do que o próprio PT. O primeiro por defender as bandeiras repudiadas por políticos de extrema direita e o segundo e não menos agredido por ser marca fiel na defesa de democracia e no combate aos abusos cometidos durante a ditadura militar brasileira.
Aliás, esta votação serviu muito mais para a reafirmação do que há de mais hipócrita no Brasil, do que para avaliar os atos da presidenta da república. Esta mácula jamais será esquecida das páginas do Congresso Nacional. Este congresso, que perdeu a autoridade de ser chamado de casa do povo, doravante será lembrado tão somente com palco no qual mais uma vez, a classe política voltou as costas para a democracia e a transformou em ditadura da lavagem cerebral.
Por fim, lamento pensar e escrever sobre este assunto. Mas o faço na esperança de tudo não tenha passado de uma ventania.

terça-feira, abril 19, 2016

CARTA ABERTA POR UMA REFLEXÃO EM TEMPOS DE IMPEACHMENT

Abril, 17, o dia em se concretizou no Brasil, o descortinamento de uma nova política, clara cristalina, do somatório de vinganças pessoais contra um sistema de poder cuja capa é o combate a miséria e a distribuição de renda e cujo cerne é o mesmo jeito de se fazer política desde os tempos de invasão do Brasil. Pobre povo brasileiro, que acreditou na real autoria da derrubada de presidentes mas que mais uma vez se constituiu na massa de manobra para uma reviravolta política em cujo cenário se escondem múltiplos interesses, múltiplos inimigos declarados em favor de um desconstituir alguém eleita como inimigo público em comum.

_ Por que derribar a Dilma?
_ Me pergunto.


  • A classe política afirma que ela foi arrogante e que acreditou ser capaz de governar o país sozinha;
  • A bancada ruralista afirma que ela foi tolerante com os movimentos sociais que a todo instante ameaçam invadir a terra;
  • A bancada evangélica diz que ela é favorável ao casamento de pessoas do mesmo sexo;
  • A bancada da segurança pública fala que ela é conivente com a marginalidade;
  • A bancada da industria fala que ela retira dinheiro do setor produtivo para colocar em programas sociais;
  • O políticos implicados em crimes contra o patrimônio público desejam arrefecer o clima de avanço das investigações das operações da Polícia Federal.

São tantos motivos reais para derribar a Dilma. Cada um ao seu modo, ensaia sua forma em particular.

Mas como uma Ministra Chefe da Casa Civil do Governo Lula, tão inteligente e competente se tornou uma presidente tão frágil a ponto de ser tocada fora de um governo por tantas pessoas de conduta pouco plausível?

Não seria possível resumir em poucas palavras. Primeiro teríamos que analisar os motivos pelos quais a então Ministra do Governo Lula chegou à presidência, depois precisaríamos analisar o papel do próprio presidente Lula em todo o movimento político nacional e como ele e o núcleo central do PT se apropria de todas as estratégias políticas praticadas pelos seus antecessores em nome da governabilidade. Mas antes ainda, como o PT conquista o apoio patronal em prol da construção de uma aliança para se eleger. E como ainda, consegue se tornar odiado em seu próprio berço político e amado em territórios comandados pelo coronelismo brasileiro.

Sem muitas delongas vale ressaltar alguns fatos sequenciais que se apresentaram de forma sutil e que nem sempre são discutidos pela imprensa brasileira.

Com o Impeachment do Presidente Collor, o PMDB ascende ao poder sob o amparo das correntes majoritárias do PSDB e do PFL. O Governo Itamar Franco lança no cenário político o ministro pai do Plano Real que compunha os quadros do PSDB e que viria a se tornar presidente, dois anos mais tarde. Este ministro, Fernando Henrique Cardoso promoveria o início de processos neoliberais estratégicos que seriam afagos inomináveis ao empresariado nacional e internacional, como a privatização de grandes companhias, dentre elas a CSN e a Vale do Rio Doce, dois dos maiores orgulhos nacionais. No afã da conclusão do processo em curso seria necessário que FHC permanecesse no poder por mais quatro anos. foi então que se constituiu a famosa Emenda a Constituição que garantiu a sua continuidade no poder mas criaria mais tarde, um efeito indesejado para o seu próprio partido no breve futuro porque permitiria que os seus mais severos aliados políticos se utilizassem dessas estratégias para comprimir o PSDB a condição de vilão e de perdedor contínuo (quatro eleições presidenciais seguidas).
A derrocada do PSBD foi iniciada com a traição ao seu próprio arranjo político. No ano de 2002, quando a ilustre filha do maior coronel do Maranhão, o respeitado ex-presidente José Sarney chegou se preparava para ser presidente da república, teve sua vida devastada após terem sido encontrados em posse do seu esposo, a quantia de R$ 1.200.000,00. O que inviabilizou sua candidatura mas levou a rompimento da tríplice aliança política que viabilizou o governo FHC.
Neste momento, o Partido dos Trabalhadores se viu diante da possibilidade de constituir um apoio tal que pudesse se sobrepor ao PSDB, já que o descontente PFL teve sua imagem arranhada e cuja ranhura atribui ao grupo do FHC e o PMDB cuja forte referência à época era o ex-presidente José Sarney, em retaliação ao que foi feito à filha, passa a costurar aliança em favor do antes demonizado Lula. somada a esta aliança, o respeitado empresário mineiro José Alencar do PL (atual PR) que conglomerada também a forte bancada evangélica que ajudou a superar a ligação que se fazia entre Lula e as forças da obscuridade, o que causava medo no leitorado.
_ O que deu errado com Dilma?
_ Me pergunto?
_ Nada deu errado com Dilma e ninguém tem nada contra ela.

Tudo não passa de um cena politica na qual há um processo de superação das antigas divergências que viabilizaram o governo FHC.

O PFL diante das fortes crises deflagradas pelas constante investidas da polícia federal no governo Lula foi defenestrado e para não sucumbir ao nada se tonou democratas. Caciques poderosos de vários partidos nesse período, acumularam derrotas expressivas em várias localidades brasileiras. O crescimento do PT em cenário nacional acabou por consumir as alianças constituídas no governo Lula quando partido começa a entrar no território do PMDF, em especial e por último no estados do nordeste. mais especificamente, ainda, na casa do poderoso José Sarney, com a derrocada de sua família do poder quando o aliado um aliado umbilical, o PCdoB torna-se governo no Maranhão e quando o ex-presidente sequer recebe apoio para concorrer a cadeira do Senado Federal.

Outro fator de destaque é a fome do PMDB. Partido que se já era forte durante o governo do PT e que navegou em águas tranquilas durante o governo Lula, se tornou famigerado durante o governo Dilma. Trazendo para si todos os bônus e entregando ao PT todo o ônus pelos constantes fracassos.

O que deu errado com Dilma?

Ela não se fez liderança respeitada frente ao próprio partido. Não se sentiu preparada para fazer alianças políticas para além do PMDB. Comprou brigas homéricas com grupos farmacêuticos, com a classe médica, com as igrejas evangélicas e com tantos outros grupos políticos, que se tornou inviável politicamente.

Que fique registrado que se ainda existe PT e se o PT está fortalecido, deva-se isso a Dilma Vana Roussef, a mulher que pela segunda vez na história é entregue aos lobos. É humilhada por seus agressores, mas se mantém fiel.
Dilma é vitima de um processo político no qual o PT soube a hora de entrar mas não se dispôs a discutir a hora de sair. A hora de dizer que iria sair seria ao término da eleição de 2014. Deveria ter sinalizada para alguém, o seu apoio nas próximas eleições. Para o próprio Michel Temer, quem sabe.
Se alguém não se recorda eu devo falar.

Foi exatamente no momento em que Lula se lança pré-candidato a presidência da república em 2018, que a vida da presidenta Dilma mais uma vez foi entregue nas mãos dos seus algoses. E curiosamente, é esta mesma humilhação pública a qual foi submetida, que possibilitará a revitalização e a reunificação do PT, com o apoio maciço do maior vitorioso de todos os partidos durante todo o processo, o PCdoB que renasceu, cresceu e floresceu como um partido com identidade histórica e política, que conseguiu crescer aos poucos sem o inchaço dos partidos de aluguel. Outro partido que ganhou destaque neste processo foi o PSOL. Que demonstrou ser um Leão valente nas defesa dos seus ideais. Seus poucos deputados tornaram-me voz de muitos dos oprimidos brasileiros.

E a Dilma Vana Rousseff? 

Entrará para a história como a mulher que deixou consumir a si mesma. Que foi odiada pelo próprio partido porque permitiu que a Polícia Federal investigasse e a justiça julgasse muitos e muitos corruptos nascidos no governo Lula, dentro do próprio PT e em contra partida se viu no Brasil, muitos e muitos empresários serem condenados por seus crimes.

A mesma Dilma, cabeça pensante de grandes transformações pelas quais o Brasil passou nos últimos anos, pessoa traída pelo partido e oprimida pelo próprio padrinho político. Dilacerada e ao mesmo tempo admirada pela pelos políticos de oposição.

E o povo brasileiro?

Sem líder. sem referencial político, desanimado, desempregado, acreditando que apoiar a derrubada da Presidenta Dilma ajudará a melhorar a própria situação e a situação do país. Mal sabe que as prestações da alta dívida contraída já chega mês que vem.

Um presidente sem carisma, comprometido com o empresariado e com os famigerados políticos investigados por esquemas de corrupção, tem a grande primeira missão de "santificar" o Presidente da Câmara do Deputados, tornar mais moroso o poder judiciário, encapsular o Ministério Público e a Polícia Federal, restituir as fontes de financiamento que foram minguadas ao empresariado, banir o Movimento dos Sem Terra, afagar as bancadas evangélicas, fortalecer a industria de armamentos, ...
E sofrer. Porque se existe uma coisa que esse no PT sabe fazer é oposição. E se o PT desistir da candidatura própria nas eleições de 2018 para apoiar um outro candidato aí é que o voo de Temer será abreviado.

E o povo?

Deste eu faço parte, continuaremos lutando, um dia de cada vez. E quando o povo deixar de praticar as pequenas corrupções será capaz de entender e diferenciar os grandes corruptos. Estes mesmos, sem lastro político, já não terão mais voto nem voz. O Brasil será de fato e de direito o nosso Brasil. 



sábado, abril 02, 2016

CARTA ABERTA AOS QUE CLAMAM POR ESPERANÇA

"Nosso destino nos escolhe. Não dar para fugir de quem somos"

Palavras deflagradas em um dos tantos filmes que assisti ao longo de minha vida. Na verdade em cada história que assisti, procurei me colocar no lugar do protagonista. Esta era a forma de me tornar alguém diferente de quem me sentia, de me fortalecer diante da dura realidade que se encontrava a minha volta e reconstruir o meu próprio personagem. Por outro lado, no momento em que o filme acabava, mas uma vez lá me encontrava com minha velha e boa realidade, tentando construir e reconstruir a minha própria filosofia. Aquela que me forjou e que certamente nas histórias que assisti, foram forjados parte primordial do enredo que assumi para mim mesmo.
Passados os anos, passei a reconhecer que não havia novas histórias para serem contadas. Todos os filmes que assisti na verdade se tornaram partes uns dos outros e de alguma forma, as cenas já não mais eram novidades para mim. Novidade mesmo era a minha própria vida, que permanecia diante dos meus olhos e que por muitas vezes desejei revogar para tentar viver histórias não destinadas a mim.
Destino, não sei em qual base teológica ou filosófica se assenta esta palavra, mas sei que de alguma forma somos chamados a refletir sobre ele mais cedo ou mais tarde. Nesta reflexão certamente constituímos ideais de acontecimento. Algo que venha a aplacar a angustia do nosso coração e trazer fio de paz a nossa alma. Neste momento recorremos à esperança. Algo que, contraditoriamente com todos os prognósticos nos permite tornar utopias em sonhos e sonhos em realidade. Não uma realidade apenas concreta no plano material, mas uma realidade concretizada no íntimo de nosso ser.
_ O que fazer com o que tenho de mim. Perguntaria a mim mesmo?
_ Algo melhor do que o que sou?

Alguém que conheço insiste em dizer que não há nada ruim que não possa piorar. Digo, contrariamente que não há nada melhor que não possa ser melhorado ainda. Bom ou ruim são pontos de vista que construímos e reconstruímos mediante as nossas expectativas. E para não deixar de repetir o jargão mais bem falado da história: "basta acreditar!".

No campo das possibilidades as chances por mais remotas que sejam, são as mesmas chances que precisamos para mudar a realidade.

A esperança não nasce dentro de nós, a esperança nasce conosco. Nasce para que possamos viver pois do contrário sopro de vida nenhum seria possível existir. E se o destino é de fato possibilidade, com o despertar da esperança, até mesmo o destino se curva e se redesenha para reconstruir novas realidades.

Que vivamos com esperança.

sábado, março 26, 2016

A ilusória sensação do poder

Tudo aquilo a que chamamos de poder refere-se a influência do ser dominante sobre o ser que acredita ser dominado ou que de fato é dominado. O domínio de um ser sobre o outro é uma relação baseada na aceitação, resignação, coação, temor, respeito, necessidade de proteção, dentre outros. Não existe domínio se não houver aceitação. É uma relação de dependência tanto do ser dominante quanto do ser dominado. Em não havendo esta relação, não há domínio.
No plano no qual nos encontramos, toda relação de domínio pode ser rompida unilateralmente eu reafirmada ao critério de ambos, dominante e dominado...No intuito de esclarecer sobre a tese que pretendo defender de que o poder é uma sensação ilusória do ponto de vista do trabalho e do discurso de uma única pessoa, tentarei estabelecer uma parábola, considerando os papéis desempenhados por sete pessoas que compõem uma equipe em um órgão público, na qual todos desempenham cargos de chefia.
1. João é uma pessoa com muitas habilidades para a realização de trabalhos manuais, de aparência rude, muito inteligente e acredita ser um excelente articulador político. Por outro lado tem por hábito, manter Antônio informado sobre tudo o que acontece no órgão, mesmo que isso implique na geração de discórdia com os demais companheiros de trabalho.
2. Antônio é uma pessoa extremamente correta em sua vida pessoal e profissional, cuida da própria família com esmero e dedicação. Por outro lado, acredita que todas as pessoas com as quais trabalha deve seguir o seu exemplo. Tem por hábito tratar as pessoas conforme a hierarquia funcional, ou seja, rigor aos subordinados e subserviência aos superiores hierárquicos.
3. Maria é uma excelente articuladora, sabe distribuir as tarefas dentre os membros do seu grupo de trabalho e via de regra acerta em suas decisões. por outro lado é extremamente centralizadora, acredita que por ser detentora de informações privilegiadas pode conduzir todo o processo de trabalho. Em função dessa característica torna-se por vezes insubordinada e por acreditar que controla o trabalho controlando as pessoas, não acompanha os serviços que são desenvolvidos, por isso submete a instituição a situações vexatórias e promove constrangimentos ao próprio chefe. Vez ou outra lança informações duvidosas ao grupo como se fossem informações verdadeiras, no intuito de reforçar suas convicções.
4. Márcia é extremamente competente, zelosa, fiel, honesta e comprometida com a instituição. Por outro lado é de grande fragilidade emocional. Constantemente alerta incisivamente aos seus chefes para as eventuais irregularidades que podem vir a ocorrer no órgão. Algo que alimenta o rigor de Antônio, seu chefe imediato, que muitas vezes comete excesso no trato aos seus subordinados, o que causa constrangimentos a instituição.
5. Rita é uma pessoa dócil, de fino trato, inteligente, mas extremamente insegura ao tomar decisões. Em muitas situações precisa da presença do chefe para reafirmar as decisões tomadas diante dos grupos com quem trabalha. Por sua saúde emocional frágil foge aos debates mais acirrados e acaba por permitir que decisões sejam tomadas em seu nome.
6. Rodrigo é extremamente correto e comprometido com suas obrigações. Sobre aquilo a que se propõe a fazer, cumpre com esmero. Trata-se de uma pessoa com senso absoluto de territorialidade e não permite intervenções, nem mesmo do chefe, naquilo que cuida em fazer. Sabe como poucos na empresa, delegar funções. Não abre mão da vida pessoal pelo serviço e de forma alguma leva serviço para casa. Por outro lado, por ser uma pessoa que sempre faz planejamento à curto, médio e longo prazo, comete o mínimo de erros. Sua condição para desenvolver o seu trabalho é a autonomia para gerir a sua equipe. Aqueles que não se enquadram em seus planejamentos, simplesmente os descarta.
7. Por último, existe o Miguel, cuja missão é manter integrada toda esta equipe. Suas qualidades e defeitos são pouco conhecidas pelos seus companheiros. Suas decisões são tomadas apenas quando há expressiva necessidade de intervenção, algo que ocorre, principalmente. quando seus subordinados divergem dentre si.
Curiosamente, a diversidade da equipe a torna produtiva e vitoriosa. Qual seria, então, o segredo?
Concentração de poder?
De certa forma, cada um dos membros da equipe conquistou relativo empoderamento para desenvolver o seu trabalho. Esse empoderamento advém dos valores demonstrados em seus afazeres e pelas soluções criativas que apresentam diante da adversidade. Mesmo com suas fragilidades são capazes de conquistar o apoio das pessoas com quem trabalham mais diretamente e passaram a constituir certos núcleos de liderança.
Acreditar que tem poder sobre algo ou sobre alguém tornou-se para cada membro do grupo, de certa forma, necessário para a elevação da própria auto-estima. E diga-se de passagem que todos eles apresentam sinais de que lutam dia a dia para a superação de sintomas de baixa auto estima. Algo que de certa forma contribui para a determinação dos seus posicionamentos.
Ao analisar dentro do grupo quem seria a pessoa mais adequada para ocupar o lugar de chefe de toda a equipe podemos, em primeiro momento conceber que seria pouco plausível que esta equipe permanecesse unida caso algum destes ascendesse ao posto mais elevado na empresa.
Alguns seriam destituídos dos seus cargos pelo chefe mais rigoroso e outros se submeteriam às novas ordens. Por outro lado, chefes inseguros seriam colapsados por chefiados centralizadores.
Conforme os comportamentos descritos, com relação aos membros da equipe pode-se depreender que a concentração de poder induz ao enfraquecimento da coletividade. No entanto há necessidade de certo empoderamento para que constituam núcleos de trabalho autônomos e se tornem produtivos para a empresa. Isto me leva a crer que o poder em si não pode ser concentrado nas mãos de quem quer que seja, mas também não pode ser negado ao grupo. Portanto precisa ser resultante de uma partilha. Interessante seria que cada membro da equipe entendesse que o empoderamento do grupo constitui-se no reconhecimento de que cada sujeito tem muito mais a oferecer quando se propõe a abrir mão de certos comportamentos individualistas que caminham para a desestabilização da equipe. Mais interessante, ainda, seria se cada membro da equipe fosse capaz de entender a complexidade do trabalho dos seus companheiros para, uma vez tornando-se chefe destes, saibam dimensionar o quão necessitam respeitar o trabalho de cada sujeito.
Neste caso, na perspectiva de uma consciência coletiva moderadora, cabe ao líder o papel de promover o equilíbrio das relações de poder. Esta tarefa torna-se extremamente desgastante porque implica em ir de encontro a decisões tomadas unilateralmente pelos seus liderados, principalmente as que causam prejuízo para a equipe como um todo.
O líder precisa reconhecer que terá que preparar os seus liderados para a missão de escolher um novo líder. Não pode ele, intervir na decisão da equipe. Deve ser honesto com relação aos seus sentimentos e precisa abrir mão da própria autonomia em favor da manutenção do grupo. Ele deve saber que:
  1. Necessita persistir;
  2. Necessita pedir perdão e perdoar;
  3. Necessita promover segurança ao grupo;
  4. Necessita tornar-se desnecessário na constituição da autonomia do grupo.
Ao reconhecer o próprio fracasso, sobretudo com relação ao item 4, o líder precisa reunir o grupo e lhe oportunizar esta reflexão porque certamente ele mesmo, incorporou o processo de concentração e afirmação de poder observado dentre os seus liderados. Ele mesmo, por ter aprendido a neutralizar todas as estratégias dos seus liderados, se utilizando dos mesmos argumentos por eles utilizados precisa romper com este ciclo e permitir que eles mesmos avaliem o contexto.
De certa forma, eles já reconhecem que o seu líder, ao assumir as suas próprias estratégias de concentração de poder, se tornou alguém desnecessário para o seu crescimento pessoal e apenas o rompimento da relação de comando pode restabelecer os laços de confiança que um dia se constituíram quando da formação do grupo.
Porque falo que o poder é ilusório? Porque é apenas um ponto de vista comum ao ser dominante e ao ser dominado. Diante de uma nova visão de mundo, o poder não mais existe.
Quando se acredita nesta ilusão de poder cria-se a ideia de que o líder exerce a liderança pela sustentação externa que lhe é concedida. Ou seja, se o líder parece ser forte, tem o aparente respeito e admiração da equipe. Por outro lado se o líder parece ser fraco, torna-se sufocado pela depreciação da própria imagem perante a equipe.
Quando o líder reconhece que seus subordinados atuam segundo estes argumentos, tende a criar em volta deles uma cortina para que não enxerguem todas as informações. Tende a dosar as informações na cota dos afazeres diários dos seus liderados. Este também trata-se de um processo de concentração de poder de extrema fragilidade porque o líder torna-se solitário nos seus próprios afazeres. Nesse sentido, a instituição também torna-se frágil porque na ausência do líder as ações da empresa tendem a desmoronar.
Preparar um substituto torna-se necessariamente compartilhar com ele, todos os segredos da instituição, algo que causa temor porque o próprio líder tende a preparar alguém com expressiva capacidade para macular a sua imagem. Isto ocorre quando o líder pratica atos dos quais se envergonha.
Por outro lado se o líder não teme os próprios atos e manifesta-se no sentido de descortinar todos os seus afazeres, possibilitando a autonomia necessária aos grupos para que desenvolvam os seus afazeres segundo as competências que lhes são conferidas, o que impede aos liderados tornarem-se líderes tão somente é a ausência de humildade para aprender uns com os outros. Neste caso a sensação de poder deixa de ser ilusória e torna-se real, na medida em que se descobre que o verdadeiro poder não pode ser concentrado e sim compartilhado.
Isto significa se alegrar na alegria dos outros, se interessar pela vitória dos outros e trabalhar para que os outros sejam vencedores.
Daí resulta o verdadeiro sentido da vitória. Quando esta, independentemente de quem vença, torna-se vitória de todos.
A sensação de poder individualizado é também uma máscara para disfarçar as próprias fragilidades do sujeito. Não haveria sentido na afirmação de poder se as pessoas tivessem consciências e segurança das próprias potencialidades.
Apenas os sábios conseguem perceber que o verdadeiro poder consiste na capacidade que o sujeito tem para partilhar ou pouco ou o muito que possui em igualdade de dimensionamento.