terça-feira, junho 23, 2015

Educação profissional nas escolas públicas do DF: um caminho a ser reconstruído

"O que você vai ser quando crescer?"

As pessoas da minha e de outras gerações certamente responderam a esta pergunta por muitas e muitas vezes. Pergunta esta aparentemente inocente mas carregada de significados que ainda perduram em muitos dos nossos contextos, muito embora revestida de outros argumentos:

  • Qual curso superior você pretende realizar?
  • Em qual universidade pretende estudar?
  • Qual carreira profissional pretende seguir?
  • O que você vai fazer da vida?
  • Onde você pretende está daqui há dez anos?...

Naturalmente, perguntas como estas são contextuais e muitas vezes a pessoa que pergunta tem condições de avaliar a situação real e as estimativas de sucesso da pessoa a quem pergunta. Por outro lado, existe um viés para além do desejo de saber, que é provocar o indivíduo a avaliar o próprio caminho e a sonhar um sonho pautado na construção de cenários.
Neste sentido, a pergunta sobre o que alguém será quando crescer ganha novos significados na medida em que o próprio perguntador tem por objetivo o auxílio na construção de possibilidades.
Perguntar e não querer refletir com a pessoa a quem pergunta é perguntar no vazio. Perguntar e duvidar da resposta dada sem avaliar cenários é perguntar no vazio. Perguntar para julgar improcedente a resposta é mais vazio ainda.
Daí pergunto:
Quais as contribuições que a Educação profissional, uma vez implantada e consolidada, pode trazer para os sujeitos que aprendem no Distrito Federal?
As considerar algo sobre o saber ser, saber fazer, saber conhecer e saber conviver há que se pensar que as práticas pedagógicas desenvolvidas nas escolas públicas nem de longe dão conta de ancorar todas as necessidades sociais demandas pelos sujeitos que aprendem em seus processos de formação. Neste sentido muitos profissionais em nosso meio passaram a defender que processos de escolarização desenvolvidos em parceria com processos de profissionalização tendem a proporcionar melhores oportunidades para adolescentes e jovens que necessitam participar do provimento da renda familiar ainda durante a vida estudantil.
Esta realidade, que é cada vez mais acentuada, sobretudo dentre as famílias menos favorecidas vai de encontro aos critérios estabelecidos pelo mercado de trabalho cuja remuneração poderia satisfazer as expectativas dos adolescentes e jovens. A assunção ao mercado de trabalho que proporciona melhores remunerações, está condicionada a um processo de formação muito mais amplo do que a própria escola é capaz de proporcionar. Ou seja, ser, fazer, conhecer e conviver, além de suas inter-relações são saberes construídos através de processos que levam em conta contextos sócio-político-econômico-culturais muitas vezes distantes dos quais os adolescentes e jovens pretendem alcançar e cuja transição não faz se não pelo embate entre os saberes antigos e os novos saberes a serem construídos.
Existem ainda os casos em que os jovens ao se libertarem dos contextos nos quais cresceram e se desenvolveram tendem a negar a própria origem e a incorporar linguagens, traços culturais e propostas condizentes com as novas comunidades das quais passará a fazer parte como se deles pudessem ser arrancadas as marcas que possibilitaram suas assunções ao convívio social em outros contextos.
Para refletir sobre estas e outras questões, apresenta-se, em princípio, alguns dos aspectos a serem considerados em processos de profissionalização nas escolas públicas do DF:

  1. Proporcionar ao sujeito que aprende, condições de interagir com o mundo trabalho no provimento de renda favorável à sobrevivência familiar com esmera dignidade;
  2. Proporcionar ao sujeito que aprende as condições adequadas para que compreenda e seja praticante dos princípios de urbanidade, razoabilidade, probidade, dentre outros, no execício profissional;
  3. Proporcionar ao sujeito que aprende, o despertar para a compreensão acerca da responsabilidade social que fundamenta o seu processo de desenvolvimento profissional, bem como o saber ser praticante desta responsabilidade para com a formação dos seus pares.
A compreensão destas questões vão ao encontro do que se pensa ser parte das responsabilidades a serem assumidas pela escola pública. Esta e apenas esta tem condições de alcançar:
  • O que não tem;
  • O que não pode;
  • O que não sabe;
  • O que não se sente capaz.
No entanto, a Escola Pública, que ora conhecemos permanece em estado de reinvenção. Processos de profissionalização desencadeados a partir de programas desenvolvidos pelo Governo Federal, tem chegado ao DF de forma tão lenta e desgastante que roubam dos educadores o direito de sonhar. Esta demora, em grande medida, alimenta processos de formação equivocados que ora se predispõe a "treinar" pessoas para operar máquinas, comunicar idéias, repassar soluções e ora reafirmam a lógica do subemprego, na medida em que a formação se faz como processo estanque e sem possibilidade de continuação.
Somado ao desafio de iniciar um processo de profissionalização que interaja no progresso da educação básica existe ainda o desafio de pensar sobre como acolher as pessoas não escolarizadas e as pessoas que já concluíram a educação básica e se sentem analfabetos profissionais.
Podemos simplesmente acreditar que as coisas serão resolvidas por si sós ou podemos repensar o modelo de escola que temos.
Mais uma vez afirmo sem afirmar: se existem caminhos possíveis, viáveis e plausíveis para a escola que temos, um deles perpassa pelo saber fazer, por que resulta na satisfação do Ser humano de ser também, o ser que transforma, que intervém, que age; o saber conhecer que afugenta o ser humano da escuridão; o saber conviver que o coloca em harmonia com os outros e, o saber ser, que proporciona significado a sua existência.
Estes saberes nem de longe serão vislumbrados em escolas fragmentadas que se predisponham a construção de saberes como se estes pudessem ser suficientes em si mesmos. Portanto, ao nosso entendimento a escola que temos se aproximaria um pouco mais da escola ideal se passasse a considerar que não podemos formar generalistas, na expectativa que eles mesmos encontrem seus caminhos sem ao menos saberem que "não há caminhos".
A formação de generalistas foi iniciada no momento que se propagou o entendimento de que "formamos as pessoas para a vida" sem refletir sobre as possibilidades que estas pessoas terão ao deixarem a escola.
Ao repensar a escola pública na concepção de proporcionar ao educando o pleno exercício da cidadania faz-se necessário repensar o antes, o durante e o depois, além de como estas etapas da vida humana se articulam com a escola e com o mundo do trabalho.
Sinceramente, não consigo compreender como a escola se propõe à olhar o educando apenas naquele momento de convivência pontual. Esta é a escola fragmentada, que precisa ser reinventada. E a educação profissional, ao nosso entendimento, se encontra nesta linha de reinvenção. Reinvenção porque a profissionalização está imbricada com a escola, mesmo que esta não a reconheça, ou se a reconheça, não a incorpore em suas práticas laborais.

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